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1 de agosto de 2010

Goth Culture: Gênero, Sexualidade e estilo na Subcultura Gótica (Análise e Reflexão)

O livro Goth Culture: Gender, Sexuality and Style da alemã Dunja Brill, é sobre a relação entre modo de vestir e identidade sexual  dos membros  da subcultura gótica, apresentando entrevistas e pesquisa de campo feito pela autora em eventos e clubes da Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos .


O livro é uma pesquisa séria e interessante,  daquelas que falam um pouco de aspectos sociológicos, de simbologia de roupas e de hábitos.  A pesquisa de Dunja mostra nuances da subcultura que eu ainda não  tinha parado pra refletir sobre, como o lado contraditório e semelhante com a cultura dominante. Aos que acham que a cena no Brasil é imperfeita, que tem gente mais privilegiada que as outras, muitas garotas que apelam pra sensualidade explícita, verão como é a cena nos países citados: tão contraditória quanto aqui.


Feminilidade e Androginia 
Todas as subculturas tem uma hierarquia, normalmente elas celebram aspectos masculinos, porém a subcultura gótica tem traços que celebram a androginia e a feminilidade. Ou seja, a subcultura tende a ser analisada da perspectiva da feminilidade: maquiagem, acessórios, cabelos longos, vestuário (saias, tops justos) e elementos de roupas fetichistas foram abraçados pelos góticos dos dois sexos.
Porém, essa feminilidade na subcultura é ambígua e problemática. Para as mulheres góticas, ser pega com uma "maquiagem entediante" ou mal feita pode ser humilhante e - igual ao caso das mulheres da sociedade mainstream, obcecadas com a beleza - implica a perda de status na subcultura.

O estilo andrógino é restrito aos homens góticos. Na subcultura, o termo "androginia" é descrito como "um culto à feminilidade". A androginia masculina é constantemente ligada à qualidades como transgressão e coragem. A força da transgressão pode ser usada por homens como um modo de atingir a masculinidade "expressando controle sobre as mulheres" e como uma forma de rebeldia contra os homens dominantes. Transgredir e desafiar as normas sociais dá aos homens um critério maior de status na subcultura, porque a masculinidade é mais valorizada em nossa sociedade do que a feminilidade.
A androginia feminina na subcultura gótica é fortemente desencorajada. Então, para as mulheres góticas, a principal opção para ganhar aceitação  e status através da subcultura é adquirir feminilidade, beleza e atração e forma igual à cultura tradicional dominante em que vivemos. A subcultura tem enormes e contraditórias pressões sobre as mulheres. Assim como na cultura dominante, as góticas acima do peso também sofrem preconceito e discriminação por não se encaixarem no padrão de magreza e feminilidade extrema obrigatória no grupo.


O Machismo Velado

Nas subculturas grafite, punk e heavy metal, a masculinidade e o machismo são explícitos e as mulheres desses grupos normalmente adotam visuais masculinizados e agressivos, mas na subcultura gótica com a feminilidade sendo o foco de admiração e padrão, o machismo impera na forma velada.

Já que as mulheres e a feminilidade são o forte da subcultura, elas devem ser mais enfeitadas que os homens, estar vestidas com muito estilo lhes dá poder e controle. Com estilo, elas se tornam intocáveis também para os homens tradicionais (que não são da subcultura), que as olham com medo e receio de se aproximar, o que os mantém longe delas. Esse poder da feminilidade pode ser paradoxal, já que a palavra "poder" é um símbolo masculino.

A androginia feminina é rejeitada, poucas góticas se adentram por esse estilo, nas raízes da subcultura, Siouxsie Sioux brincava com elementos andróginos do pós punk, esses elementos estão praticamente ausentes na atualidade. As góticas que decidem usar looks andróginos dizem que a androginia feminina lhes torna rebeldes e fortes, porém, na subcultura não há para essas garotas um "prêmio" de reconhecimento por essa coragem.

Muito da androginia gótica veio do punk, pós punk e do glam rock. Os músicos de bandas de rock que apelam pra esta estética são glamourosos e transgressores e esta se torna um tipo de "acessório rebelde" para eles, já que na sociedade mainstream a moda masculina é sem graça e comum. Essa androginia glamourosa e transgressora, adotadas pelos homens góticos, lhes dá status já que na subcultura gótica, a vaidade é uma virtude.

Status: feminilidade extrema para as mulheres e androginia para os homens. Quanto mais feminina, enfeitada, perfeitamente maquiada e de cabelos longos, mais admirada é a gótica.
Marilyn Manson effect: o visual andrógino e a estética glam goth do músico é copiada pelos homens que usam a androginia como forma de aumentar seu status na subcultura.



A cultura ocidental é fóbica quando se trata de homens efeminados. Na subcultura, o homem efeminado anuncia seu desvio, sua rebeldia, e é visto como corajoso, confiante encarando as normas sociais que censuram sua androginia.
Esse culto à androginia masculina é maior na Inglaterra. Na Alemanha, os homens ainda preferem um visual mais másculo e agressivo, mesmo quando usam saias, as saias devem lembrar guerreiros medievais, guerreiros futuristas e devem ser acessorizadas com correntes ou cintos. Essas saias costumam ser chamadas de "saias de combate", mostrando que a saia recebe um nome bem masculino, agressivo. Essa característica mais "macho" dos góticos alemães se dá porque muitos deles entram na subcultura através do Heavy Metal - que é um estilo musical muito forte na Alemanha (cena Schwarze).

Nas subculturas em geral, o espaço é majoritariamente heterossexual e o machismo é algo comum, sendo as mulheres relegadas à  objetos sexuais sendo admiradas pela beleza. 
Em Londres, homens góticos entrevistados por Dunja dizem que em clubes noturnos quando uma garota nova aparece, todos querem conhecê-la, enquanto que, se um rapaz novo aparece, é deixado de lado. Isso demonstra como a heterossexualidade é forte na cena já que as mulheres recebem todas as atenções para que possa eleger um novo parceiro e os homens devem lutar entre eles pelo território. A mulher fica responsável por prover charmes eróticos através de sua beleza e os homens devem se deixar levar por esse charme.


Sexismo e a participação feminina na cena Gótica
Na cena alemã e também nos EUA, é comum a prática de flyers de eventos góticos apresentarem garotas em roupas ao estilo fetiche ou semi nuas, isso também acontece em pôsteres e anúncios de revistas. As góticas não devem se importar ao ganhar reputação de ter uma vida sexual promíscua, ao contrário, ser uma "slut" (traduzido como cadela em português) lhes dá status nas cenas góticas pesquisadas por Dunja. A escritora diz que nas suas pesquisas encontrou diversas mulheres confiantes e que não se importam de expressar sua sexualidade de forma bastante direta e mesmo de forma agressiva. E essas garotas costumam ter um status muito alto na subcultura.

Outra faceta da liberdade de expressão da sexualidade feminina é o estilo altamente sexualizado que muitas mulheres góticas adotam. Em alguns clubes, citados como "mercado de carne", a maioria das mulheres se vestem de forma a mostrar o corpo e recebe atenção por seus looks. Essas roupas sensuais não são vistas como uma forma de "oferecimento" aos homens, mas sim vistas como uma valorização da estética da subcultura e da liberdade sexual feminina.

Assim como na cultura mainstream, a maioria dos góticos diz que idade não importa num relacionamento, porém, a pesquisa de Dunja mostra que na real, é aceitável homens mais velhos terem relacionamentos com mulheres mais novas, enquanto que o contrário: mulheres mais velhas com homens mais jovens não é algo comum. Nos clubes, se veem poucas mulheres mais velhas mas o mesmo não acontece com os homens mais velhos. Dunja liga essa ausência de mulheres mais velhas em clubes com as regras de beleza gótica, afinal, quanto mais velha uma mulher fica, é mais propenso que sua beleza decline, já que as mulheres são julgadas pela sua atração física, o que não acontece com os homens. As mulheres mais velhas que frequentam eventos, dizem se sentirem marginalizadas pelos outros góticos. "Os homens são frequentemente julgados pelo seu status social, intelectual e pelo sucesso material, mulheres são julgadas pela aparência e pela sua relação com os homens" (p.109).

Além da liberdade de as mulheres expressarem sua sexualidade sem serem mal vistas, outra área que é menos rígida que na sociedade mainstream é a questão desenvolvimento na cena. Pessoas que contribuem com a cena em clubes, organizando festivais ou tendo lojas são imensamente admiradas. Na cena do Reino Unido, o envolvimento das mulheres com produções e organizações é muito grande em comparação com outras subculturas.  Algumas  das maiores empresas góticas são dirigidas por mulheres. Mulheres que organizam eventos ou produzem mídia tem a mesma "quantidade" de respeito que os homens que fazem o mesmo serviço. Já a cena alemã é mais comercial e é em sua maioria dominada por homens em oganização de festivais, revistas e clubes. Todo esse envolvimento profissional na cena, lhes dá prestígio subcultural.

O estilo feminino, como já foi citado acima, quanto mais feminino mais é valorizado. Para os homens, ter uma aparência de "aberração" pode lhes dar status. Esse fenômeno é chamado por Dunja de "efeito Marilyn Manson", pelo modo como esse artista trabalha sua aparência. Para as mulheres, um look "aberração" é indesejado. Elas devem manter sempre seu estilo belamente enfeitado.
Para as góticas, o ideal de beleza masculina seria um homem magro, alto, de cabelos compridos, traços finos e um toque andrógino. As góticas entrevistadas dizem que adoram observar um garoto andrógino, porém não sentem atração sexual por eles, na hora de ter um relacionamento, preferem os não-andróginos.

Toda essa regra de "as mulheres góticas devem ser mais enfeitadas que os homens", pode explicar porque há mais roupas para as mulheres do que para os homens: "é porque a estética é considerada primariamente um domínio feminino, os homens são esteticamente motivados a escolher as amantes e as mulheres em serem escolhidas" (p.115).
Essa diferença entre masculinidade e feminilidade também é explicita nos estilos de dança. A dança masculina expressa poder e força como um vampiro, um guerreiro e a dança feminina, graça e misticismo, como as fadas. O macho dominante e poderoso versus a mulher receptiva e maleável. Há hordas de "cavaleiros solitários", "guerreiros negros solitários", "vampiros" e "lobos" procurando por suas "princesas", "elfas", "anjas caídas" na noite. As mulheres que ousam rejeitar a feminilidade extrema da cena, são marginalizadas.


Sexualidades estranhas
A abertura sexual e a transgressão são valores importantes na subcultura gótica. Góticos normalmente aceitam e toleram sexualidades não convencionais (gays, lésbicas) e de gênero (transgêneros). Eles também comumente se identificam com os gays e outras minorias e mesmo se solidarizam com grupos marginalizados como eles. Em cidades pequenas, góticos, gays ou travestis, dividem ou coexistem no mesmo espaço apoiando uns aos outros. Porém outra contradição da subcultura gótica: a afinidade com o bissexualidade. Sabemos que, bissexuais na nossa sociedade são estigmatizados como "os outros" e são negados e silenciados tanto pelos gays quanto pelos heterossexuais, pois são considerados pessoas que ficam "em cima do muro".

Muitos góticos pesquisados por Dunja se dizem bissexuais, porém há mais mulheres se autoproclamando bissexuais do que homens. Muitas góticas tem atração ou namorariam outras mulheres enquanto que os homens que se dizem bissexuais não assumem ter interesse sexual por outro homem, dizem apenas que gostam de observar um homem bem vestido ou outro homem vestido de forma andrógina. Para Dunja, isso é outro sinal do machismo na subcultura, que assim como na sociedade dominante, um homem pode ter relações sexuais com duas mulheres (ou seja, a mulher nesse caso se torna bissexual), mas os homens góticos, embora não tenham preconceitos contra gays, não aceitam uma relação sexual entre dois homens e uma mulher (onde o bissexual seria o homem). Os homens que ocasionalmente escolhem uma imagem homossexual fazem isso para transgredir, brincar ou chocar. Preferencialmente, pra adquirir status, escolhem a imagem andrógina. Essa bissexualidade também dá status a quem assume, só que muitos góticos se sentem incomodados em não serem bissexuais e por conta disso terem menos status. Muitos se dizem bissexuais, mesmo não sendo, para terem mais status. Então, conclui-se que as mulheres que querem ter um status a mais se intitulam bissexuais e os homens que querem um status a mais apelam pra androginia.

Já a questão do homoeroticismo é ainda mais conflituosa. Embora os homens góticos assumam não ter preconceitos com gays, Dunja Brill captou uma certa homofobia na cena que são raras de serem exteriorizadas. Peter Steele um dos homens que se encaixam no ideal de beleza masculina idealizado pelas góticas, é considerado pela escritora um homofóbico e machista. Quando ela o entrevistou, ele disse que posou para a Playgirl para as mulheres e que rejeitava atender homens na sessão de autógrafos da revista. Por conta do grande número de gays presentes na sessão de autógrafos, ele escreveu a canção "I like Goils" (girls), uma música de letras ofensivas e abertamente homofóbica.

Peter Steele, a beleza idealizada masculina das mulheres góticas (magro, alto e de cabelos longos) é considerado homofóbico e machista.


Música e Midia
O machismo da subcultura está explícito também na música. Umbra et Imago apresenta seu show com duas mulheres semi nuas com toque homoerótico; Blutengel, outra grande banda também apresenta homoeroticismo no palco e na sua arte dos cds. Essas duas bandas são igualmente amadas e odiadas na cena, amadas por jovens, odiadas pelos mais velhos.
Essa mentalidade "sexo vende" e lesbianismo são característica forte nas bandas alemãs, em bandas britânicas e americanas como Sleep chambers e Midnight Configuration com garotas dançando no palco em roupas de PVC. Tanto as bandas como as revistas apelam para imagens de S&M/fetiche no palco ou em ilustrações com fins comerciais. Mulheres na posição submissa tem bastante destaque, algumas poucas bandas exploram a imagem do masoquismo masculino, uma delas é Nine Inch Nails.
A quase totalidade das imagens de mulheres apresentadas como objetos sexuais ou em cenas de lesbianismo e fetiche, são de autores homens. Talvez, se retratadas sobre o ângulo de uma fotógrafa tivessem um foco na estética e não no gênero.

Bandas como Umbra Et Imago, Blutengel, Sleep Chamber, usam a mulher como objeto explorando a imagem fetichista e bissexual, tendo o homem como dominante.

Outro sinal de machismo está nos vocais de muitas bandas, onde as mulheres cantam com vozes suaves, angélicais. Estilos como Electro, EBM e Industrial, com seus sons pesados, distorcidos e ásperos estão em mãos masculinas, excluem a participação feminina no estilo.  Muitas bandas destes estilos adotam visuais militaristas ou de campos de batalha.

Quando as bandas decidem misturar elementos masculinos e femininos, há uma divisão clara, exemplificada por exemplo pelo Gothic Metal (estilo que é parte da subcultura heavy metal): os homens se encarregam de tocar Melodic Death Metal e fazerem vocais másculos guturais e as mulheres são as responsáveis pelas angélicas vozes de soprano. Por isso muitas bandas desse estilo são chamadas de "A bela e a Fera". Típico caso onde as mulheres são relegadas ao domínio da emoção, sensualidade, eroticismo e beleza física, enquanto que os homens ficam com a expressão artística. Esse é o modo como muitas female-fronted bands se representam e se apresentam na mídia subcultural. "As mulheres músicas tendem a ser apresentadas primariamente como mulheres e não como musicistas" (p.151). Esta é a ligação do gótico com o Heavy Metal: Um fetiche por tecnologia, uma estética masculina hardcore e a mulher vista como objeto sexual, mãe da terra ou restrita à sua feminilidade.

As raras mulheres que ousam se aventurar em bandas de Industrial, EBM ou Electro, são acusadas de fazerem "músicas para garotas" e isso é falado de forma pejorativa. Esse estilo, também chamado de Future Pop é popular em clubes europeus e tem muitos oponentes puristas.

O curioso de tudo isso é que a cena gótica é cheia de mulheres poderosas, como as divas Gitane Demone do Christian Death, Diamanda Galas e Siouxsie Sioux são ícones femininos de poder, não convencionais e às vezes até de feminilidade agressiva. Talvez essa seja uma forma de as mulheres da cena reconstruirem uma imagem mais positiva dos "atributos femininos" devido à pressão do mundo racional masculino. Artistas mulheres que tentam quebrar a barreira do gênero e ousam criticar o sexismo da cena em que elas são parte comumente se encontram em um "double-bind" (situação em que o indivíduo recebe mensagens contraditórias ou diferentes), já que elas tendem a serem vistas como uma mercadoria sexual, independente dos seus méritos artísticos, já que esse tipo de imagem faz com que as mulheres possam passar a ver a si mesmas de forma distorcida e se tornem ainda mais obcecadas com a aparência.

As divas Diamanda Galas e Siouxsie (que brincava com a androginia):  mulheres poderosas, dominantes, agressivas e transgressoras pouco influenciam as mulheres góticas da cena atual.


Os questionamentos aqui apresentados foram todos retirados do livro e espero que tenham feito vocês refletirem de alguma forma sobre as subculturas e suas utopias. Talvez o machismo e os valores patriarcais de milênios de história esteja tão enraizado em nossos hábitos que seja difícil aponta-lo em algumas situações, mas podemos vê-lo quando analisamos símbolos e hábitos e quem sabe, consciente desses hábitos, podemos tentar mudá-los.

"As subculturas não são perfeitas, pois são moldadas de acordo com os interesses do grupo. As subculturas não se prepararam para mudar o mundo. Elas visam sobretudo criar um microcosmo paralelo no qual seus membros possam se divertir, um microcosmo com experimentações como  regra e menos restritivos do que a sociedade em geral. Numa era pós-moderna, as subculturas parecem ser mais sobre a "negociação individual", do que uma "rebelião coletiva contra algo", como gênero e outros princípios estruturais da sociedade" (p.185/186).



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22 de julho de 2010

Gothic: Dark Glamour - A Exposição

Gothic: Dark Glamour, foi uma exposição do museu FIT (Fashion Institute of Tecnology) de Nova York, que durou de 5 de setembro de 2008 a 21 de fevereiro de 2009. A exposição foi completamente planejada pela historiadora, escritora e curadora do museu, Valerie Steele.

Valerie Steele é uma renomada historiadora de moda e tem dezenas de livros publicados, atualmente está escrevendo um sobre a moda japonesa. Vou citar alguns títulos dela que são relacionados com subculturas: The Corset: A Cultural HistoryThe Black Dress; Fetiche: Moda, Sexo e Poder (único lançado em português) e o livro da exposição: Gothic: Dark Glamour. O livro da exposição foi lançado em relativamente poucas cópias, trás imagens de peças da exposição, subculturas e fotografia de moda mainstream influenciadas pela estética gótica. Também tem uma bibliografia e discografia gótica, entrevistas com o estilista Rick Owens, com Sisters of Mercy e com o fotógrafo Sean Ellis autor da capa do livro. Na capa, os "dedos chifres" de metal são de Sarah Harmanee para a coleção outono/inverno de 1997/98 de Alexander McQueen.


Durante guerras ou desastres, temas dark surgem como um modo de confrontar os maiores medos da sociedade. Nestas épocas as silhuetas são severas e austeras, de tons sombrios e silhueta rígida. "Nem todas as roupas pretas são góticas", diz Valerie Steele, "nem todas as modas góticas são pretas". Gótico é uma estética que abraça muitos modos e significados do preto: a morte, desafio, diabrura e dandismo. Vestidos de luto Vitoriano são góticos, assim também são os memento mori, como crânios e esqueletos. Na moda gótica, o preto é mais que preto - é própria escuridão, o lado escuro incorporado em um tom sombrio único.

Steele acredita que a moda gótica é capaz de encarnar a essência da morte, porque moda e morte são cortados do mesmo pano. Moda, ela diz, é uma forma de morte: É constantemente morrendo que ela pode voltar em uma silhueta nova, uma nova forma, um novo estilo. Toda moda é morta viva. Toda moda é um monstro Frankenstein.
"Ao longo da história do mundo", Steele escreve, "preto tem sido associada com a noite e a escuridão, e, por extensão, com a morte, perigo e o mal."  Preto era a cor de Belzebu - e da nobreza. Ela observa que até o século XIX, corantes negros eram caros. Só os ricos podiam comprar um pano preto.
Byron usava preto. O preto perfeitamente capturado na reputação do poeta como um libertino e um rebelde. Baudelaire se vestia de preto. Foi dito que ele parecia "um Byron vestido por Beau Brummel". Byron foi um poeta romântico; Brummell um dândi Inglês que revolucionou o corte da moda masculina no início do século XIX. Baudelaire foi um pouco de ambos: um rebelde vermelho sangue que comportou-se com um ar de indiferença, de sangue-frio, de frieza.

"Ironicamente, a conotação negativa da palavra (gothic) tornou-a, em alguns aspectos, ideal como um símbolo de rebeldia. Daí a sua importância para subculturas juvenis".
A manifestação contemporânea mais importante do estilo gótico é a subcultura gótica. De estilo capitaneado pela diva Siouxsie, que desenvolveu um olhar mais macabro, misterioso. Siouxsie misturava e combinava peças vintage de Vivienne Westwood com peças vitorianas vintage. Com o rosto pálido de pó, ela parecia um personagem de O Gabinete do Dr. Caligari; com os olhos de contorno preto, ela parecia Theda Bara, a vamp lasciva dos filmes mudos.
O estilo gótico pegou jovens descontentes em todo o mundo, solitários e perdedores, que desejavam ser os poetas, os rebeldes e dândis. Em 1984, um cabelo gótico deveria ser tingido loiro ou preto azulado. Meias arrastão para meninas; saias para garotas e rapazes. Preto não era negociável, era obrigatório. Os góticos pareciam estar sofrendo, mas para quem? Para quê?
Atualmente o visual gótico clássico pode ser abandonados, o preto não é mais obrigatório. Steele vê o estilo crescer em maneiras novas e inovadoras: cyber góticos usam tecidos reflexivos. Góticos Vampiros têm presas. Gravers são góticos que incorporam as cores elétricas de ravers em seus looks. O estilo steampunk combina as rendas e espartilho do gótico vitoriano com os óculos e máscaras de gás do gótico industrial. Steele vê traços do gótico na moda punk, heavy metal, psychobilly e rockabilly.

Na moda mainstream, Oliver Theyskens, um estilista belga, foi apelidado de "príncipe das trevas" devido à seus assustadores vestidos furtivos. A coleção "Viagens Obscuras" de 1997 incluía vestidos vitorianos bordadas com fio de cabelo humano. Em 2007, o designer londrino Gareth Pugh apresentou um casaco enfeitado com ratos brancos mortos. Em 2008, na Nova York Fashion Week, Frank Tell desfilou uma coleção inspirada Siouxsie. "Francamente, eu faria tudo preto, se eu pudesse". Alexander McQueen, tem uma influência melancólica em seus trabalhos e faz referências propositais de temas como “escuridão e macabro” empinando seu nariz para as noções convencionais de beleza. Já o estilista Rick Owens foi gótico em sua juventude.

Selecionei perguntas de entrevistas de alguns sites com Valerie Steele sobre a exposição.

Porque você focou na moda gótica?
Dois anos e meio atrás me parecia que estava na hora do gótico reemergir como o tema principal na moda. A última vez que isso foi realmente grande foi em 1997-1998. 2008 foi uma temporada muito gótica nas passarelas e nas revistas de moda e mesmo na cultura popular com séries como True Blood e filmes de vampiros.
Há milhões de livros e exposições sobre a influência gótica nas artes, arquitetura, cinema e literatura. Há pouquíssimos livros sobre a subcultura, que tem capítulos sobre os estilos subculturais, mas ninguém nunca focou na influência gótica na moda mainstream.
O glamour obscuro do gótico se tornou perversamente atrativo para diversos designers, John Galliano me disse que vê garotas góticas como “nervosas e frias, vamps e misteriosas” enquanto Rick Owens disse que sempre que ele vê jovens góticos ele pensa que poderiam ser filhos dele. Mas outros designers como Olivier Theyskens e Ann Demeulemeester, rejeitam o rótulo gótico mesmo que eles saibam que o trabalho deles tem sempre um certo romanticismo dark.

Por que você decidiu se tornar historiadora de moda?
Eu estava preparada para fazer pós-graduação na Universidade de Yale, onde eu estudei história cultural e intelectual européia. Minha colega fez uma apresentação sobre o espartilho vitoriano. Naquele momento, tive uma epifânia. Vi a moda como parte importante da cultura. Meus professores me disseram era seria uma idéia realmente estúpida eu me tornar historiadora de moda. 

Como você define o gótico na moda?
A moda gótica é uma moda que passa um certo tipo de narrativa – uma história que tem algo de terror e de erótico macabro. Não é apenas a questão de como é desenhada a roupa, mas como ela é usada. Você pode pegar um vestido preto e enfeitá-lo ao estilo lady like ou você pode usá-lo de modo que ele obtenha uma estética gótica.

Quando a maioria das pessoas pensa em gótico, eles pensam em adolescentes vestidos de preto – mas a exposição enfatiza o lado romântico da moda gótica.
O romântico é uma parte dele. Uma definição em andamento do estilo gótico é de fato o romantismo obscuro. Alguns italianos visitaram a exposição e a moda italiana costuma ser muito clássica, bege e chic. Primeiro eles estavam como “isso é como halloween” e então de repente eles entenderam tudo! Eles disseram “é decadência”, eu disse “Sim!” O romantismo dark leva à decadência. Mas certamente há designers italianos como Riccardo Tisci da Givenchy que tem uma sensibilidade gótica. Isso é mais comum encontrar em designers britânicos ou japoneses.

Há alguns vestidos de Alexander McQueen na exposição. Você pode falar sobre a influência gótica no trabalho dele?
A maioria dos etilistas tem um coleção gótica ocasional, mas para alguém como McQueen, o lado dark é uma parte intrínseca de sua estética. Ele sempre está buscando uma imagem de feitiçaria, ele é atraído pelo erótico macabro. Isso aconteceu durante toda a sua carreira. Ele tem um vestido que criou inspirado em sua ancestral que foi executada como bruxa na cidade de Salém. Esse é  o tipo de tema perfeito pra ele. John Galliano, em seu trabalho para a Christian Dior, frequentemente faz peças góticas. Quando eu o entrevistei, ele disse que ele vê as garotas góticas como sexies e assustadoras. Ele foi atraído pela idéia de pessoas decadentes como Marchesa Casati, que usava maquiagem pálida e andava por seu palácio em Veneza parecendo uma cadáver.

Porque o estilo gótico resiste?
O apelo do gótico começa há dois séculos atrás. Mas a exposição foca em roupas de 1990 e do século XXI. Mas nas últimas décadas, a moda contemporânea tem buscado muito mais os temas subculturais e está sempre procurando pelo que você pode chamar de "carisma do desvio". Em 1950 as pessoas estavam preocupadas em parecerem respeitáveis e convencionais porque haviam um perigo real se você aparentasse ser muito diferente, alguém poderia te acusar de ser comunista ou homossexual. Hoje em dia, esse medo primariamente desapareceu.

O que você como  o futuro do estilo gótico?
Eu vejo um aumento da influência do leste. – do Japão e Coréia. Nós minamos toda a imagem ocidental, Drácula e etc. Mas agora há uma imensa onda nova que os jovens estão curtindo: anime, filmes de terror japoneses e coreanos tem toda uma opção estética. Nos vemos isso na exposição com um maravilhoso vestido de festa da Rodarte que foi inspirado nos filmes japoneses de horror.

Abaixo textos traduzidos diretamente da exposição. Cada sessão da exposição tem um título e cada peça de roupa se adequa à esse tema escolhido.

 

Introdução:
Gothic é um adjetivo que caracteriza uma história estranha, evocando imagens de morte, destruição e decadência. Não é apenas uma palavra que descreve algo (como uma catedral gótica), é quase inevitavelmente um termo de abuso,  que implica que há algo sombrio, bárbaro e macabro. Ironicamente, suas conotações negativas a tornaram, em alguns aspectos, ideal como um símbolo de rebeldia. Daí a sua importância para subculturas juvenis. Hoje, a expressão "goth" e "gótico" são popularmente associados com adolescentes vestidos de preto e músicos de rock. Mas o gótico tem muitas camadas de significado.
As imagens de morte e decadência, o poder de horror e o erótico macabro são perversamente atraentes para muitos designers. John Galliano, por exemplo, descreveu a menina "gótica", como "nervosa e fria, vampy e misteriosa." Alexander McQueen, Rick Owens, Yohji Yamamoto, e Riccardo Tisci da Givenchy também criaram o que poderia ser descrito como moda gótica. Ann Demeulemeester pode rejeitar o rótulo gótico, mas Rick Owens orgulhosamente lembra que ele já foi um gótico, assim como Vivienne Westwood era  punk.


Noite:
A sala Noite explora o simbolismo do preto. A cor gótica por excelência. A cor preta tem sido associada com morte, perigo e maldade, mas também com o mistério, elegância e erotismo. O diabo é conhecido como o Príncipe das Trevas. Mas desde o século XV, o vestuário preto também foi associado com elegância e aristocracia, em grande parte porque a tintura preta era muito cara. Roupas pretas também foram associadas com a elegantemente satânica figura do dândi, o Príncipe Negro da Elegância. Longe do Little Black Dress, a moda nessa seção da exposição é adequada para a femme fatale e para o vampiro dândi aristocrático.

"A obscuridade é vertiginosa.... Quando os olhos vêem preto, o espírito vê problemas.... Durante a noite, até o fortes se sentem ansiosos. " Victor Hugo, Les Miserables

Abaixo: Vestilo Elegant Gothic Lolita de Kazuko Ogawa (fall 2008) e look de Alexander McQueen da coleção Sarabande (spring 2007)



A sala "O Gabinete de Curiosidades" remete às salas de conhecimento ou teatros de memória do Renascimento, coleções de objetos cujas fronteiras categóricas eram obscuras: história natural, relíquias religiosas, objetos de arte - todos eram incluídos nessas coleções principescas. O crânio humano é o tipo de objeto prezado como um tesouro memento mori (uma lembrança da morte), posteriormente colecionado como um modelo científico, e agora onipresente em inspirações para acessórios de estilo gótico.
Outros objetos em exposição incluem uma máscara mortuária, jóias de luto vitoriano, uma cartola tatuada com a imagem de um morcego, e os acessórios que incorporam os crânios de pássaros, garras e asas - em alusão a temas como morte, tempo e transcendência.

Abaixo: Chapéu "Tattooed" de Justin Smith (2007) e fivela de cinto em fomato de morcego do começo do século XX, em propriedade dos colecionadores e designers Mark Walsh e Leslie Chin da Vintage Luxury.

 

Na sala Strange Beauty, a moda é caracterizadas por formas não convencionais e imagens estranhas como fonte.
O gótico tem atraído pessoas marginalizadas pela sociedade, desde a estética homossexual de Horace Walpole, autor do primeiro romance gótico: O Castelo de Otranto, até os Vampire Balls de hoje em dia.
Assim como os bárbaros Godos eram percebidos pelos romanos como a antítese da civilização clássica, o gótico medieval foi visto pela modernidade, como o "lado negro". Com a ascensão do Iluminismo, todo o período medieval retrospectivamente visualizado como a Idade das Trevas, era caracterizado pela superstição e feitiçaria.
Como gênero, o estilo gótico é caracterizado pelos temas da morte, destruição e decadência, assombração e prisão, poderes de horror e do erótico macabro. A moda gótica tem seu próprio vocabulário visual que evoluiu a partir de um conjunto de associações narrativa evocada pela literatura gótica de terror, desde a sua origem em o século XVIII até suas manifestações contemporâneas na ficção de vampiro.

Abaixo: vestido Rodarte (fall 2008). Kate e Laura Mulleavy, donas da marca, foram inspiradas pelos filmes de horror japoneses nesta coleção. A intenção da estampa deste vestido era "parecer sangue na água".   
Ao lado, look de Rick Owens (fall 2008). Rick Owens sempre foi atraído por uma estética "glamour decadente", diz ele: "Todos aqueles anos de idealismo condenado visto na luz da idade adulta parecem tão doces e pungentes. Todo o preto que eu sempre usei, colocar na passarela, é como uma piscadela de amor."

A sala Bat Cave usa espelhos de duas direções para permitir vislumbres de um leque de estilos góticos, do gótico old school ao cyber goth.
A relação entre o estilo subcultural e a moda mainstream é muito mais complicada do que o estereótipo de cooptação implicaria. Apesar de muitos acadêmicos ainda interpretarem subcultura como "uma forma de resistência heróica à cultura dominante", esse paradigma tem se tornado cada vez mais inconvincente. Imagens de "desvio" têm sido amplamente incorporadas à cultura popular. A novidade é que o conceito de uma única cultura dominante parece ter se desintegrado, deixando uma vasta gama de culturas de nichos, ou tribos de estilo.
Em ambos os termos musicais e de indumentárias, o gótico se desenvolveu do punk a partir de um certo momento entre 1979 e 1981. A primeira geração de bandas pós-punk britânicas que foram classificadas como "gótica" incluem Bauhaus, Sixouxie & the Banshees, The Cure, UK Decay e Sisters of Mercy. Niilismo Punk e fetichismo, a visão de David Bowie do glam rock, um estilo mais sombrio, de influência do horror, tudo misturado. O "death look" do gótico foi criado com base branco pálido, lápis de olho preto, esmalte preto e batom vermelho escuro. Quando o famoso clube da Batcave abriu em Londres, seu lema era "Blasfêmia, luxúria e sangue."

Os góticos contemporâneos tendem a ser muito "mais dialeticamente envolvidos com o passado do que a maioria das outras subculturas jovens". Não só eles inspiram-se nos seus antecedentes subculturais, como os punks e os glam rockers; como eles também recorrem ao eclético cânone histórico de tradições literárias, estéticas e filosóficas. Eles escavam profundamente a história e as associações com o gótico.

Abaixo: Conjunto Elegant Gothic Lolita e o boneco Angry Doll de H. Naoto. Naoto é um ícone da estética "chocante mas bonitinho" da moda japonesa. Esse look foi escolhido para a exposição com a ajuda de reais Lolitas do Japão.
A segunda imagem: Look Cyber Goth. Baseado no estilo industrial, tal como faixas refletivas e cores neon lançadas pelos Gravers (Gothic Ravers).
A terceira imagem: estilo gótico contemporâneo da Plastik Wrap, os designers, Adriana Fulop e Ryan Webb, criaram moda futurista com toques de cores vivas inspirada na música contemporânea.



A sala Mourning (Luto):
Desde a ascensão do romance gótico do século XVIII, o estilo gótico tem sido associada com temas sublimes do terror e do sobrenatural. O culto vitoriano do luto mandava se vestir de preto dos pés à cabeça, inspirando membros da subcultura gótica - e contribuindo para a imagem de femme fatale e de vamp.
Os vestido de luto Vitoriano deveriam simbolizar pesar e respeito pelos mortos. O luto pesou mais sobre as viúvas, que deveriam vestir preto por pelo menos um ano. Roupas de luto eram feitas de tecidos com uma textura sem brilho, como crepe, mas não eram só pretos. Durante o segundo ano de luto, cinza e violeta podem ser introduzidos gradualmente. Embora os livros de etiqueta vitoriana salientavam que o vestido de luto deveria ser "plano" e "simples" isso foi desmentido pelo fato de que o luto, desde que uma categoria de moda, muitas vezes foi extremamente elaborado.

Entre a constelação de convenções góticas, o medo da morte é muitas vezes transformado em uma espécie de horror sexualmente carregado. Morte e decadência são estetizadas e romantizada. Não é apenas o limite desfocado entre a vida e a morte, assim também há uma compreensão de transgressão sexual e de gênero. A viúva poderia ser facilmente percebida como uma mulher fatal, cujo abraço levou à morte de seu amante. A femme fatale foi muitas vezes, embora nem sempre, retratada em preto. Os filmes mudos do início do século XX criaram a imagem da vamp vestida de preto, interpretado por atrizes como Theda Bara.

Abaixo: Vestido de luto de 1870. Góticos contemporâneos apreciam o fascínio mórbido e claustrofóbico do espartilho do vestido de luto Vitoriano. O simbolismo do preto evoluíu "de luto para a noite." O preto não simbolizava só o luto, mas também roupas da corte aristocrática, que foram as antecedentes do vestuário formal noturno atual.

A segunda foto: vestido de Kambriel, Midnight Bustle de 2005. O trabalho de Kambriel exemplifica "a estética gótica romântica", que é caracterizada por tecidos moles e fluído em estilos historicamente inspirados. "Para mim, gótico é toda sobre encontrar beleza nas sombras", diz a estilista gótica. "Trata-se de ver o mundo através de uma lente de Tim Burton, no qual o humor negro encontra a ironia inteligente".
O terceiro vestido: vestido de noite de Yoshiki Hishinuma (fall 1996). O designer japonês Yoshiki Hishinuma combinou alta técnologia têxtil com o estilo histórico.



Sala: O Palácio Assombrado (The Haunted Palace) lembra a metáfora arquitetônica de Edgar Allan Poe para uma mente perturbada. Se a moda puder ser considerada um tipo de "arquitetura íntima", então podemos esperar a moda gótica manifestar similar características de prisão, ambigüidade e desintegração.
O sobrenatural tornou-se associado ao psicológico em narrativas góticas, como no conto de Edgar Allan Poe "A Queda da casa de Usher" (1839). Significativamente Poe especifica, de passagem, que a casa se refere tanto à "família e a mansão da família". Também pode evocar degeneração da mente para a loucura, um efeito que Poe brilhantemente criou em sua horrível história de incesto e enterro prematuro, culminando no momento em que um "fissura mal discernível" na Casa de Usher de repente aumenta e causa o colapso do edifício.

No entanto, o estilo gótico não se limita a refletir a ansiedade social, uma vez que desde o início foi um gênero que joga com os aspectos prazerosos do terror. O Marquês de Sade foi correto ao observar que o gótico é um gênero moderno, mesmo quando recorre a antigos medos.

Abaixo: Vestido Givenchy  de Riccardo Tisci (Fall 2006). Mesmo antes de assumir a direção artística da Givenchy, Riccardo Tisci era conhecido por seu romantismo obscuro.
Outra foto: Vestido Alexander McQueen (Spring 2001). Este famoso vestido é de uma das coleções mais poderosas e perturbadoras de McQueen, que evoca imagens de beleza, horror e loucura.



Cemetery:
Um Cemitério, cercado por um muro de túmulos evoca uma sensação de claustrofobia, tal como o véu islâmico, o mascaramento e espartilho.
A associação com a moda e a morte é o centro do estilo gótico, mas a morte também está aliada à moda em geral.
"A moda tem que morrer e morrer rapidamente, a fim de que possa começar a viver", declarou Gabrielle "Coco" Chanel. "É preciso perdoar toda a moda porque ela morre jovem", brincou o amigo dela, o poeta Jean Cocteau. "A moda zomba da morte", rebateu o filósofo Walter Benjamin. Ao celebrar a novidade e artificialidade, a moda promete renovação sazonal e eterna juventude. No entanto, embora a moda seja a medida dos tempos modernos, ela existe fora do ciclo biológico de nascimento, morte e decadência. Segundo Benjamin, a essência da moda é o fetichismo, porque é baseado no sex appeal do inorgânico. Como resultado, ele argumenta, a pessoa viva torna-se uma espécie de manequim "um cadáver alegremente enfeitado".

Ao contrário do corpo vivo e morrendo, a moda não é nem viva nem morta. Como os vampiros, a moda é morta viva.

Abaixo duas peças de Jean Paul Gaultier, outono de 2001 e primavera de 2004 respectivamente. Da coleção da jornalista e advogada Lee Sheppard, famosa por apreciar a estética gótica e punk.
Caveiras e cruzes estão presentes na moda gótica, mas a simbologia é ambígua.


Sala: O Castelo Arruinado (The Ruined Castle) evoca a configuração paradigmática do gótico, que é muitas vezes simbólica da mente humana, "Psicologia na pedra". De acordo com o estudioso Chris Baldick, uma obra gótica "deve combinar uma sensação de medo de sucessão no tempo com um sentimento claustrofóbico de enclausuramento no espaço ... para produzir uma impressão de adoecimento indo à desintegração". Algumas das roupas expostas nessa sala mostram alusão à decadência e destruição, enquanto outros sugerem estados mentais, tais como o medo ou paixão.

Com a ascensão do Iluminismo, o período medieval inteiro foi retrospectivamente visualizada como a Idade das Trevas, que se caracteriza pela superstição e do fanatismo religioso, quando um medo irracional de bruxaria e satanismo e correu desenfreado. Ruínas arquitetônicas especialmente adequadas para o novo sabor romântico, retrógrados pensamentos e a Inglaterra protestante que teve muitos mosteiros e igrejas em ruínas. Na sua ausência, pitoresca, no Revival Gótico do século XIX, as "ruínas" poderiam ser construídas. Entretanto, a literatura gótica de terror foi caracterizada por lugares sombrios (como castelos em ruínas), misteriosos, violentos e eventos sobrenaturais e uma atmosfera geral de degeneração e decadência.
Pavorosas imagens de "superstição medieval" na Idade das Trevas, há muito tem intrigado aqueles com sensibilidade gótica. Durante a Idade Média, a Peste Negra gerou todo um gênero de imagens macabras envolvendo esqueletos e cadáveres em decomposição. Para nossa geração, a iconografia religiosa medieval, especialmente as memento mori, tem aparecido em vários desfiles de moda. A vestimenta de padres e freiras também tem inspirado a moda contemporânea devido ao modo que evoca tanto a espiritualidade e blasfêmia, ascetismo e perversão sexual.

Abaixo: Vestido de Alexander McQueen (Fall 2007) "em memória de Elizabeth Howe, Salem 1692, na Inglaterra". Feitiçaria e superstição na Idade das Trevas há tem muito intrigado aqueles com uma sensibilidade gótica. Este vestido é de uma coleção inspirada em um das antepassadas de Alexander McQueen, que foi executada por bruxaria. Como sua coleção "Joan of Arc", ele faz referências à história de perseguição religiosa.
O outro vestido: John Galliano para Christian Dior (Spring 2006). Em The Crimes of Love (1800), o Marquês de Sade argumentou que a novela gótica de terror foi "fruto da revolução - toda a Europa sentiu o choque". A Revolução Francesa também inspirou o vestido. Bordado na saia há uma imagem de Sade, com as palavras: "Não é por homicídio que a França está livre hoje?"


Mais algumas imagens da exposição:

Entre as imagens peças de Christian Dior, Alexander McQueen, Oliver Theyskens, Chanel, John Galliano, Gareth Pugh, Givenchy.

 

Vestido Givenchy usado com peruca ao estilo moicano; a dramática elegância da femme fatalle gótica; o vestido vermelho criado por Eiko Ishioka para o filme Drácula de Bram Stoker. Vestidos de luto vitoriano e a àrea da estilista gótica Kambriel.


Mesas dos acessórios e imagens de alguns visitantes.

 



Esse vídeo feito para o site do museu FIT,  é legal de ser visto porque além da entrevista com a Valerie Steele, são mostradas cenas da exposição e o repórter conversa com o público presente na abertura do evento e com a estilista Kambriel.



"Porque a moda gótica nunca morre? Porque ela é a morte encarnada."





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